Tolerância nenhuma

* Rodrigo Cesar

Tem sido através de muita luta, ao longo de séculos, que as mulheres vêm conquistando espaços públicos, no meio acadêmico, no mundo do trabalho, postos de hierarquia e poder antes impedidas de ocupar. Isto afronta uma ordem patriarcal, sustentada por homens e mulheres, que sempre as explorou na vida privada.

Sobrepondo as conquistas, ainda impera a lógica machista que impede a liberdade das mulheres nos mais variados ambientes. Em casa ou nas ruas, violentadas física, moral e psicologicamente, a responsabilidade pela origem dos atos machistas e sexistas recai injustamente sobre elas: “provocadoras”.É o que demonstra o episódio ocorrido, em São Bernardo do Campo, na Uniban, com a estudante Geisy.

O Conselho Universitário da universidade decide expulsá-la alegando comportamento inadequado que afronta o regimento interno da instituição. Afirma que não se trata de uma retaliação aos seus trajes, mas ao seu comportamento de incitar o tumulto e desmoralizar o ambiente acadêmico. Porém, cai em contradição: na mesma nota em que declara o desligamento da estudante, a intituição afirma que já havia a advertido pelos seus trajes. O fato é desmentido por Geisy.

Após (e devido a) grande reação de diversos movimentos sociais repudiando a decisão, que obteve cobertura privilegiada da grande mídia, o reitor da Uniban decide revogar a decisão do Conselho, anulando a expulsão. Trata-se, obviamente, de uma tática de mercado: caso a reação fosse de apoio, a nota do Conselho seria mantida, afinal, quando se trata de um negócio a ética é a do lucro máximo. No mesmo sentido é a decisão de promover medidas educativas sobre comportamento. Supostamente, demonstraria que a universidade se preocupa com a cidadania e é compromissada com o convívio em sociedade.

Ora, se há algum comportamento que deve ser alterado é o da instituição. Primeiro, tenta transformar a vítima em culpada. Depois, reafirma sua vocação de transformar a educação em um produto, retirando-a da esfera de direitos. Por fim, tenta passar um verniz de compromisso social.Caso esteja se referindo a uma sociedade orientada pela mercantilização do corpo e da vida, de fato a Uniban está compromissada.

A institucionalização do sexismo e do machismo é notória, segue a tendência da mercantilização da mulher nos meios de comunicação e demais esferas, públicas e privadas.
A privatização do ensino segue rumo semelhante, institucionaliza-se e é propagada como alternativa ao acesso restrito à educação pública estatal que é, esta sim, responsável por garantir o direito fundamental.

O que se espera das forças democráticas, populares e progressistas é uma dura e contínua luta contra esta tendência, demonstrada brilhantemente na manifestação organizada em frente à Uniban e em diversas outras ações realizadas em diversos pontos do país. No entanto, ser consequente com isso exige dureza. Como afirma a nota da Central Única dos Trabalhadores – CUT sobre o caso, “Violência Contra as Mulheres, Tolerância Nenhuma!”.

Portanto, ser consequente exige da central encerrar o convênio mantido com a Uniban, que, ao assegurar 5% de desconto nas mensalidades a seus associados, fortalece esta instituição sexista e machista. Ser consequente com uma trajetória de luta em favor da igualdade exige daqueles que emprestaram suas imagens para as propagandas empresariais da Uniban, declarações contundentes repudiando os procedimentos adotados pela universidade.

Ser consequente com as declarações emitidas pelo Ministério da Educação e pela Secretaria Especial de Políticas das Mulheres, exige do governo federal uma dura sinalização: desligar a instituição do ProUni e garantir que a mesma retire de seus cofres os gastos com os estudantes bolsistas.

Se é pelo bolso que se orienta a Uniban, é no bolso que deve doer. Mas não nos enganemos.
A violência poderia ter ocorrido nos corredores de outra empresa da educação, e reação semelhante viria de outros empresários. Não se trata de um caso isolado, mas de um problema sistêmico. Geisy representa milhões de vítimas.

No ambiente público ou no privado, o machismo e o sexismo deve ser banido completa e imediatamente. Para avançar na construção de uma sociedade justa e que garanta a liberdade de homens e mulheres, em igualdade não apenas no âmbito legal, tolerância nenhuma.

Rodrigo Cesar é coordenador de relações internacionais da Juventude do PT

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